Cassio Gusson
Exchanges de Bitcoin: 'O bandido entra na casa sem proteção e depois pode pular o muro lateral e vir para a nossa casa', diz BradescoApesar de estarem cada vez mais envolvidos no mercado de criptomoedas, os bancos tradicionais do Brasil voltaram a criticar os criptoativos e declarar que eles são usados para cometer crimes e práticas de lavagem de dinheiro
Notícias
Apesar de estarem cada vez mais envolvidos no mercado de criptomoedas, os bancos tradicionais do Brasil voltaram a criticar os criptoativos e declarar que eles são usados para cometer crimes e práticas de lavagem de dinheiro.
O tema lavagem de dinheiro e criptomoedas foi um dos destaques dos paineis do 11º Congresso de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, promovido pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e que contou com alguns dos principais bancos do país.
Segundo argumentam as instituições financeiras, as exchanges e fintechs que oferecem exposição ao mercado de criptoativos não seguem as mesmas regras do sistema financeiro tradicional e, portanto, seriam vulneráveis a serem usadas por criminosos para esconder dinheiro ilícito.
O professor da USP e sócio-advogado no escritório Bottini e Tamasauskas, Pierpaolo Cruz Bottini, afirmou que a digitalização do sistema econômico e sua consequente desburocratização é preciso ser feita com cuidado para evitar a prática de crime.
“Novas tecnologias podem facilitar crimes. A pandemia elevou os crimes digitais”, afirmou
Bottini pontuou que nesse contexto é preciso atenção especial as exchanges de criptomoedas que muitas vezes são a porta de entrada dos criminosos para o sistema financeiro.
“É um mercado dinâmico, que está crescendo, e as autoridades não querem engessá-lo, mas acho que a legislação precisa incidir sobre ele.”
Pula o muro da nossa casaQuem também 'pegou no pé' das empresas de criptomoedas e fintech em geral foi o diretor-executivo do Bradesco, Moacir Nachbar Junior, que afirmou que estas empresas seriam o elo mais fraco do sistema e, portanto, não teriam proteção suficiente para evitar seu uso por criminosos.
“A questão é que o bandido entra na casa sem proteção e depois pode pular o muro lateral e vir para a nossa casa”, pontuou destacando que é preciso união de todos, bancos e fintechs, pela questão da segurança.
Já Matias Granata, diretor membro do comitê executivo do Itaú Unibanco, afirmou que é preciso agir rápido pois as ações de digitalização da economia, inclusive o PIX, estão facilitando a vida para os criminosos e colocando em risco todo o sistema econômico nacional.
“A digitalização e a concorrência são bem-vindas, mas estamos colocando em risco toda a robustez do sistema que construímos nos últimos cinco anos se não fecharmos o cerco.”
Quem também mirou suas críticas ao mercado de criptomoedas foi Ana Paula Teixeira de Sousa, vice-presidente de controles internos e gestão de riscos do Banco do Brasil, apontando que os criptoativos representam um desafio adicional no combate à lavagem de dinheiro.
“As moedas digitais, com sua dificuldade de rastreamento, trazem desafios adicionais”, acrescentou.
Bancos e não criptomoedas são os mais usadosNo entanto, embora os executivos dos principais bancos do país tenham criticado o uso de criptomoedas em esquemas de lavagem de dinheiro, diversos estudos já apontaram que os bancos são as principais lavanderias para o crime organizado.
Um recentemente levantamento da Unidade de Inteligência Financeira do México revelou que o grupo denominado “G7 dos bancos” - com BBVA, Santander, Citibanamex, Banorte, HSBC, Scotiabank e Inbursa - registra mais lavagem de dinheiro no México do que as todas as empresas de criptomoedas e blockchain somadas.
No Brasil tanto Itaú, como Banco do Brasil e Bradesco são acusados de ajudarem correntistas a receber mais de R$ 1 bilhão em propina, aponta investigação da Lava Jato.
“O que está em apuração é se o banco adotou todas as cautelas devidas para evitar que funcionários fossem cooptados e valores fossem lavados ou se ele foi omisso”, disse o procurador da República Roberson Pozzobon, integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba
Segundo investigações do Ministério Público, dentro da operação Lava Jato, os bancos permitiram a abertura de contas corrente em nome de empresas de fachada e de companhias operadas por doleiros
No total os bancos teriam 'viabilizado' cerca de R$ 1,3 bilhão de recebimentos supostamente ilícitos em alguns casos por meio de cooptação de funcionários dos bancos e falhas em sistemas de controle de operações suspeitas.
Em outra investigação, também ligada a lava jato, os bancos os Itaú BBA, Bradesco, HSBC, Santander, Votorantim, Bonsucesso, Fibra, ABC Brasil, Pic, Pine, Tricury e Rural (atualmente em licitação extrajudicial) e ainda o alemão Deutsche Bank, teriam ajudado a lavar mais de R$ 13 bilhões em recursos ilícitos.
Bate e assopra: Bancos 'vendem' criptomoedasEmbora critiquem o mercado de criptoativos e, em especial as exchanges de criptomoedas, alguns dos principais bancos nacionais como Itaú e Banco do Brasil abraçaram o mercado do Bitcoin (BTC) e inclusive oferecem investimentos em criptoativos para seus clientes.
Ambos os bancos ajudaram a coordenar algumas das ofertas de ETF da Hashdex como o HASH11, que investem em uma cesta de criptomoedas; o BITH11, que investe 100% em Bitcoin e o ETHE11, que é o produto 100% em Ethereum (ETH) e que estreou recentemente na B3.
Devido a esta posição de 'bate e assopra' os bancos respondem a um processo administrativo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no qual são acusados de práticas visando impedir a concorrência por limitarem o acesso ao sistema financeiro para empresas de Bitcoin, como exchanges.
No processo, que já dura mais de 2 anos, os bancos alegam, entre outros, que não tem qualquer participação no mercado de criptomoedas e que as empresas de criptomoedas não precisam usar os bancos para receber e transferir dinheiro.
O Itaú inclusive confirmou que não abre contas bancárias para empresa de criptomoedas pois entende que a atividade pode ser usada para lavagem de dinheiro.
“Isso porque, ainda que o Itaú Unibanco opte por não atender corretoras de criptomoedas, pois entende que moedas virtuais que podem ser trocadas por dinheiro real ou outras moedas virtuais são potencialmente vulneráveis a lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, há diversos outros bancos interessados em atendê-las e, portanto, suas atividades podem continuar sem nenhum prejuízo”
No entanto, como mostra um recente documento encaminhado ao CADE pela Associação Brasileira de Criptoeconomia e Blockchain (ABCB) enquanto bate de um lado no mercado de criptomoedas e fecha acesso a empresas ao sistema financeiro, o Itaú vangloria o Bitcoin nas redes sociais vendendo produtos de investimento em criptoativos.
LEIA MAIS
EUA: Connecticut apresenta projeto de lei que autoriza uso de smart contracts no comércio
Hyperledger lança conjunto de ferramentas para interoperabilidade entre blockchains
Startup de créditos, BlockFi, lança contas com Gemini Dolar (GUSD)
Siga-nos nas redes sociais
Siga nosso perfil no Instagram e no Telegram para receber notícias em primeira mão!

